Polarização: o termômetro do abuso

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Pêndulo dourado parado no centro de um túnel de relógios, livros e papéis em movimento, com uma luz ao fundo

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A polarização não é a doença de uma sociedade. É o seu termômetro. Ela mede o grau de abuso acumulado no corpo social: quanto mais polarizada uma sociedade, maiores são os abusos que estão acontecendo nela.

O que é polarização

Polarização é a divisão de uma sociedade em dois blocos que se enxergam como inimigos. Os estudiosos distinguem dois tipos. Na polarização ideológica, as pessoas discordam sobre ideias e propostas. Na polarização afetiva, a diferença política passa a ser vivida como ameaça pessoal, e o outro lado deixa de ser adversário para virar inimigo.

O Brasil vive hoje as duas. Em outubro de 2026, o Datafolha mostrou que 78% dos brasileiros enxergam o país dividido em dois grupos opostos. Entre eleitores com ensino superior, o número chega a 93%. Uma pesquisa do Instituto Informa apontou que 52,7% da população já rompeu ou reduziu o contato com amigos ou familiares por causa de política.

A pergunta que importa não é quem tem razão. É por que chegamos a esse ponto.

A tese: polarização é proporcional ao abuso

Uma sociedade se torna polarizada quando os abusos cometidos por seus líderes chegam a extremos. A polarização é o sintoma. O abuso é a doença.

Abuso, aqui, é todo uso do poder contra aqueles que deveriam ser servidos por ele. Pode vir de governantes, de instituições, de grupos organizados. Tem muitas faces: corrupção, privilégios, impunidade, decisões que favorecem poucos, descaso com quem mais precisa, desrespeito aos valores e à liberdade de quem pensa diferente.

Cada abuso deixa uma marca em quem o sofre, e essas marcas se acumulam como tensão no corpo social. A primeira consequência é a perda de confiança. O Edelman Trust Barometer mostra que apenas 39% dos brasileiros consideram o governo confiável, e associa essa desconfiança à percepção de que a sociedade é injusta e de que governos defendem interesses restritos.

Quando a confiança nas instituições cai, as pessoas deixam de esperar justiça do sistema. Passam a buscá-la num grupo, num líder, num lado. É nesse momento que a sociedade se parte em dois.

O mecanismo do pêndulo

A polarização se comporta como um pêndulo. O movimento é quase mecânico e segue quatro etapas:

  1. Abuso. Um grupo no poder abusa dele.
  2. Tensão. O abuso gera ressentimento e desconfiança, que se acumulam.
  3. Reação. Quando a tensão atinge o limite, o pêndulo se move com violência para o lado oposto. Uma era de abuso extremo gera uma reação extrema.
  4. Novo abuso. A reação extrema, quando chega ao poder, tende a cometer seus próprios abusos. E o ciclo recomeça na direção contrária.

O pêndulo continua oscilando até que algo mude na raiz. O que cada lado chama de “luta por justiça” muitas vezes é apenas o pêndulo em movimento.

Por que escolher um lado não resolve

Se a polarização é uma reação ao abuso, então o outro lado não é um acidente. Ele é a resposta equivalente e necessária aos abusos que o seu lado cometeu ou tolerou. Cada polo existe porque o outro existe, e um alimenta o outro.

O problema é que cada lado enxerga com clareza os abusos do adversário e quase não vê os próprios. Um estudo da FGV EAESP testou isso com cenários fictícios de acusações de corrupção contra Lula e Bolsonaro. Os participantes consideraram legítimas as decisões judiciais favoráveis ao seu político preferido, mesmo quando havia suspeita de corrupção.

É esse ponto cego que mantém o pêndulo em movimento. Defender um lado com unhas e dentes não reduz o abuso; apenas troca quem o comete. E quanto mais um lado abusa para vencer, mais forte será a reação que ele mesmo está criando.

Enquanto cada lado aponta o dedo para o inimigo, ninguém olha para a mão que aponta.

A raiz: a consciência dualista

Abusos se repetem porque nascem de uma forma de enxergar a realidade. Grande parte da humanidade ainda organiza a consciência numa visão dualista: eu ou o outro, ganhar ou perder, impor-me ou anular-me.

Nessa visão, fazer o bem ao outro parece custar algo a si mesmo. Os conflitos morais se tornam intensos e paralisantes. Renunciar a um impulso negativo gera ressentimento; ceder a ele gera culpa. A pessoa permanece dividida por dentro, e uma sociedade de pessoas divididas se divide também.

Quem vê o mundo como disputa entre “nós” e “eles” tende a justificar o abuso quando ele serve ao próprio grupo. É a mesma lógica que aparece no ponto cego descrito acima.

Foi sob essa visão que leis, costumes e valores foram construídos durante séculos. Ela foi um campo de aprendizado necessário. Mas está chegando ao limite.

O caminho: da dualidade à unidade

Se a polarização mede o abuso, ela não se resolve vencendo o outro lado. Resolve-se reduzindo o abuso, e isso exige uma mudança na raiz: a passagem da consciência dualista para a consciência da unidade.

Na consciência da unidade, ferir o outro é ferir a si mesmo. Proteger o eu às custas do todo é uma ilusão. Fazer o bem ao outro é, simplesmente, fazer o bem a si mesmo. Essa ideia aparece em muitas tradições filosóficas, religiosas e éticas ao longo da história. A diferença é que agora ela se tornou uma necessidade coletiva: os velhos sistemas não suportam mais o peso de uma consciência que separa.

Na prática, isso significa trocar a pergunta. Em vez de “quem está certo?”, perguntar “que abuso o outro lado está respondendo?”. E, com a mesma honestidade, “que abusos o meu lado está cometendo ou tolerando?”. Por fim, para transcender os lados: “o que precisa acontecer para que os abusos diminuam na sociedade como um todo?”.

A transição não acontece de forma abrupta. Não há uma linha clara entre quem vive a velha consciência e quem já habita a nova. Mas cada pessoa que deixa de alimentar o pêndulo diminui a força com que ele oscila.

Fontes

Comentários

3 respostas a “Polarização: o termômetro do abuso”

  1. Olá amiga Marília; concordo bastante com seu artigo e avaliação, onde consigo localizar uma abordagem mais minuciosa e profunda. 🧐 Se formos avaliar a grande imagem do tecido social; tendo também a concordar com outros autores que pesquisam como as pessoas fazem o enquadramento político e a decisão do voto ou campo político a partir dos VALORES, das experiências que tiveram com seus pais, e do sistema de crenças. Vale olhar George Lakoff (Univ. de Berkeley) e Jonathan Haidt. Te agradeço por compartilhar.

    1. André, que alegria ter você como o primeiro a comentar! Obrigada pela leitura atenta e pelas indicações.

      Achei muito interessantes as suas colocações. Ainda não estudei Lakoff e Haidt, mas, pelo que você traz, eles mostram bem como os valores, a criação e as crenças moldam o lado em que cada um se coloca. O que tentei acrescentar no texto é uma camada a mais: os valores ajudam a explicar em que lado a pessoa se coloca, e o abuso ajuda a explicar com que intensidade esses lados se afastam. Uma coisa completa a outra.

      E vou além: acredito que as crises sociais são oportunidades de aprendizado para a consciência coletiva, que vai de um lado ao outro do pêndulo até conseguir transcendê-lo.

      Vou mergulhar nas suas indicações. Quem sabe não rendem um próximo texto? Um abraço!

  2. Aline Ahmad

    Marília, muito rico o seu texto e muito importante a reflexão.
    Concordo demais com você. O único ponto que não ficou claro para mim é a seguinte afirmação: “Uma sociedade se torna polarizada quando os abusos cometidos por seus líderes chegam a extremos”. Eu não consigo seguir o raciocínio de que os abusos geram polarização. Acho que em um próximo artigo você pode explorar melhor esta relação, pois para mim não ficou evidente no texto.
    Parabéns pela abordagem! Continue escrevendo!

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