Autor: Marília Dantas

  • Por que os abusos de poder dividem uma sociedade?

    Por que os abusos de poder dividem uma sociedade?

    Em um artigo anterior, escrevi que uma sociedade se torna polarizada quando os abusos cometidos por seus líderes chegam a extremos. Uma leitora querida comentou que concordava com a reflexão, mas que não conseguia seguir esse raciocínio. Por que, afinal, abusos gerariam polarização?

    Ela tocou exatamente no ponto central. Eu afirmei a relação, mas não expliquei bem o porquê. Este texto é a minha tentativa de percorrer esse caminho, passo a passo.

    Dois ensinamentos de partida

    Estamos em processo de evolução. Assim como uma criança aprende a andar, a falar e, mais tarde, a assumir responsabilidades, a consciência individual também cresce por etapas. E a consciência coletiva de um povo amadurece da mesma forma. Existe uma etapa, no processo de evolução da consciência, em que o mundo é entendido de forma dualista (ou é do bem ou é do mal, ou traz a ordem ou traz o caos, ou é bom para mim ou é bom para o outro). Em outra etapa, a unidade da existência passa a ser percebida.

    Tudo o que está dentro está fora. Essa é uma das verdades mais antigas da filosofia, das religiões e das tradições espirituais. O mundo que construímos juntos é a projeção do que carregamos dentro de nós. Nossos medos, nossas feridas e nossa sabedoria ganham forma nas famílias, nas empresas, nas instituições e nos governos.

    Sistemas políticos como espelhos da consciência

    Se tudo o que está dentro está fora, os sistemas políticos não caem do céu nem são inventados ao acaso. Todo sistema que existe ou existiu na Terra nasce dentro de um propósito maior, como ensina o Guia do Pathwork (1). Ele surge porque a consciência daquele grupo precisa viver aquela experiência.

    Cada sistema emerge como expressão do nível de consciência de uma sociedade em determinado momento de sua trajetória. Reflete aprendizados necessários, limites ainda não superados e possibilidades de amadurecimento em curso. Por isso, mais fértil do que julgá-los é compreendê-los: não como ideais a serem defendidos ou combatidos, mas como espelhos que revelam onde estamos, enquanto humanidade, em nosso processo evolutivo.

    Deixa-me dar um exemplo que eu adoro: a monarquia e o feudalismo surgiram em um período em que a humanidade, como coletivo, ainda não estava pronta para assumir plena responsabilidade por si mesma. Faltava maturidade para a autogestão. Por isso, havia necessidade de uma liderança concentrada: almas mais amadurecidas encarnavam naquele momento histórico com a tarefa de guiar, organizar e proteger. Em sua expressão mais pura, governar não era privilégio, mas serviço exigente. Significava renunciar a gratificações imediatas, sustentar disciplina interior e colocar o bem comum acima dos próprios interesses. Os privilégios que acompanhavam essa posição eram legítimos apenas como consequência da responsabilidade assumida.

    Com o poder, vêm as tentações, e a distorção do sistema surge quando a liderança deixa de ser serviço e se transforma em dominação. Quando o poder passa a ser exercido em benefício próprio, o que deveria proteger passa a oprimir, e a hierarquia vira instrumento de exploração. A autoridade se converte em abuso e passa a desfrutar dos privilégios sem pagar o preço da responsabilidade.

    Uma sociedade cujos líderes caíram nessa tentação já carrega a semente da polarização. Em algum momento, uma força vai surgir para equilibrar, podendo inclusive derrubar o monarca, como vimos muitas vezes na história.

    A energia que circula no corpo coletivo

    Existe uma energia que circula no corpo coletivo, assim como circula em cada um de nós. Quando um grupo age injustamente, outro grupo reage. Para compreender por que isso acontece, é preciso dizer algo que pode soar duro.

    Nenhum ser humano vivencia uma experiência que esteja fora do seu próprio percurso de alma. Mesmo os acontecimentos coletivos não acontecem de forma aleatória do ponto de vista espiritual. Isso não significa que alguém “mereça” o sofrimento, nem que devamos justificar a injustiça. Significa apenas que a vida não é caótica no nível mais profundo, ainda que assim pareça aos nossos olhos humanos.

    Também é preciso ampliar a noção de responsabilidade. Os abusos e os conflitos não são criados apenas pelos líderes visíveis. Os líderes são representantes da consciência coletiva do grupo. São atores em um teatro, aliás, ouso dizer que são marionetes! Eles são sustentados por um campo energético muito mais amplo, do qual todos participamos, consciente ou inconscientemente. Quase todos nós ainda carregamos impulsos de separação, medo, ressentimento, desejo de vantagem pessoal ou indiferença ao sofrimento alheio. Esses estados internos não desaparecem no vazio. Eles se acumulam.

    Cada pensamento de ódio, cada reação de desprezo, cada desejo de ter mais às custas do outro, cada distorção alimenta um campo energético invisível que, cedo ou tarde, busca expressão. Podemos falar, nesse sentido, de uma espécie de reserva energética coletiva. Nada do que sentimos e nutrimos internamente se perde.

    O conflito político, antes de se manifestar nas ruas, nas urnas e nas instituições, já existe no plano invisível. Ele é construído aos poucos, por incontáveis pequenos movimentos internos, de todos nós, que violam as leis do amor, da justiça e da unidade. E isso não se limita a atos ou opiniões políticas explícitas. Quem, na vida privada, reage com injustiça, egoísmo, dureza, julgamento, superioridade ou desejo de vingança também alimenta esse campo. A energia não distingue o público do privado.

    É por isso que o abuso de um grupo provoca a reação de outro. Não é um abuso que cai em um terreno neutro. É excesso de abuso que alimenta uma reserva energética, até o momento em que uma reação oposta na mesma proporção dos abusos cometidos estoura, com potencial para equilibrar o pêndulo e trazendo para nós, seres humanos, a oportunidade de aprendermos e evoluirmos.

    A experiência coletiva como oportunidade de aprendizado

    Muitos de nós, no nível individual, passamos por alguma experiência, como uma depressão, e sentimos um chamado para nos autoconhecer, entender por que pensamos da forma que pensamos, por que sentimos o que sentimos. Temos interesse em estudar o comportamento humano, os processos mentais e até a alma. Quando nos deparamos com os ensinamentos corretos, é muito comum percebermos uma evolução. Com o que aprendemos, nós nos sentimos mais felizes, mais capazes, mais confiantes e podemos até aumentar a nossa fé.

    O mesmo olhar devemos ter com a consciência coletiva. Uma experiência pode ser um chamado para acessarmos o conhecimento correto, as leis que regem a organização do coletivo, por exemplo, para entendermos o que estamos construindo, como e por que. Assim, podemos ocupar nosso lugar de maior e melhor contribuição nessa construção. Mas entender as leis do coletivo e tentar navegá-las, sem ter passado pelo processo de amadurecimento pessoal, de autoconhecimento, de percepção e entendimento correto das próprias reações, pensamentos e sentimentos, dificilmente levará o indivíduo e o coletivo à paz e ao crescimento.

    O pêndulo da história

    Cada sistema político carrega um princípio divino legítimo (1). E cada um também pode ser distorcido. Quando a distorção chega ao extremo, a sociedade reage na direção do princípio oposto. Funciona como um pêndulo:

    “Quando o abuso atinge seu ápice, surge a dolorosa confusão do dualismo, e o pêndulo precisa oscilar [na mesma proporção] na direção oposta.” — Guia do Pathwork

    Podemos resumir de maneira bem simples os princípios por trás de cada sistema político, para ficar mais fácil compreender a evolução.

    1. O abuso da autoridade. A monarquia e o feudalismo expressam, em sua forma positiva, a liderança responsável: quem governa protege e serve. Quando os governantes passam a usar o poder em benefício próprio, a autoridade vira privilégio. A reação vem em defesa da igualdade.

    2. O abuso da igualdade. O socialismo e o comunismo trazem a igualdade como resposta aos abusos dos poucos com privilégios. Mas, quando a igualdade é imposta como uniformidade, ela sufoca a liberdade, a iniciativa e a expressão individual. A reação vem em defesa da liberdade.

    3. O abuso da liberdade. A democracia capitalista procura conciliar liberdade individual e responsabilidade coletiva. Por oferecer mais liberdade, oferece mais oportunidades e também mais possibilidades de abuso. De um lado, os mais fortes podem explorar os mais vulneráveis. Do outro, os que recusam a própria responsabilidade podem transferir aos demais o peso de sua existência. A reação, então, volta a pedir controle e igualdade.

    Repare que, em nenhum desses casos, o problema está no princípio em si. Autoridade, igualdade e liberdade são verdades espirituais. O problema está na falta de maturidade de quem as exerce. Quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade exigida.

    Aqui está um ponto-chave para compreender a polarização: a reação vai na direção oposta e é proporcional ao abuso. Quanto mais longe o pêndulo vai em uma direção, com mais força ele retorna na outra.

    Mas a polarização não depende apenas da força da reação. Depende também da consciência que reage. Quando a reação nasce da dualidade, ela se transforma em um novo extremo, e a polarização cresce na mesma medida. Quando nasce do amadurecimento, a mesma energia é usada para corrigir a distorção sem negar o princípio. Nesse caso, a sociedade não se polariza: ela transcende. O pêndulo vai ficando perto do meio.

    Exemplos de como o abuso se transforma em divisão

    A história mostra esse movimento repetidas vezes. A reação ao abuso começa legítima, mas, quando nasce de uma consciência dualista, pode deixar de rejeitar apenas a distorção e passar a rejeitar tudo o que está do outro lado, e quem o defende.

    Um exemplo histórico. Na França do século XVIII, a monarquia absoluta e a nobreza viviam de privilégios, enquanto o povo pagava os impostos e passava fome. A reação veio em 1789, em nome da liberdade e da igualdade. Mas o pêndulo não parou no meio: poucos anos depois, a Revolução Francesa produziu o Período do Terror, que executou milhares de pessoas em nome da própria igualdade. E os abusos do Terror abriram caminho para o retorno da autoridade concentrada, com o Imperador Napoleão.

    Na Rússia, o mesmo desenho se repetiu. Os abusos do czarismo alimentaram a revolução de 1917, feita em nome da igualdade. Os abusos do regime soviético, por sua vez, levaram ao seu colapso e a uma guinada intensa em direção ao livre mercado.

    Um exemplo brasileiro. O Brasil já viveu esse pêndulo. Em 1964, em um país profundamente dividido, os militares assumiram o poder prometendo restaurar a ordem. O regime durou mais de vinte anos e cometeu abusos graves: a Comissão Nacional da Verdade reconheceu 434 mortos e desaparecidos no período. A reação veio na direção oposta, com o movimento das Diretas Já e a Constituição de 1988, que ampliou direitos e liberdades.

    Mais recentemente, os escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato atingiram os maiores partidos do país, de diferentes campos políticos. A confiança no sistema como um todo se rompeu. Sem saber em quem confiar, muitos passaram a depositar a esperança de justiça em um lado e a enxergar no outro a origem de todos os males. Até o combate à corrupção virou motivo de disputa: para uns, uma limpeza necessária; para outros, uma operação que cometeu seus próprios excessos. Cada campo passou a apontar os abusos do adversário para justificar os seus, e a divisão se aprofundou em famílias, amizades e ambientes de trabalho.

    Temos exemplos mais próximos? Esse mesmo padrão pode acontecer em igrejas, em organizações, em empresas, dentro das famílias. Todas as estruturas econômicas, políticas e sociais, sejam elas grandes ou pequenas, reproduzem os conflitos que existem dentro de nós. Esses sistemas que dei de exemplo, a monarquia e o feudalismo, não existem apenas no externo e na história; eles vivem dentro de cada um de nós e no presente. Em seu aspecto puro, representam a capacidade de assumir a responsabilidade pela própria vida e guiar a si mesmo com maturidade. Em seu aspecto distorcido, manifestam-se como tirania interior, rigidez, abuso de poder sobre si ou sobre os outros, ou desejo de resultados sem esforço proporcional.

    Quando recusamos liderar a própria vida, mas nos rebelamos contra os limites externos, reproduzimos dentro de nós a mesma distorção. Criamos conflitos com a autoridade fora porque evitamos assumir a autoridade dentro. É nesse sentido que os sistemas políticos são espelhos: o que vemos neles é o reflexo do que ainda estamos aprendendo a ser.

    Quando os erros do outro justificam os nossos

    Há ainda um elo que explica por que a polarização se alimenta sozinha. Na democracia capitalista, os dois extremos usam a distorção do outro para justificar a sua (1). Quem explora aponta a irresponsabilidade alheia para justificar a própria ganância. Quem foge da responsabilidade aponta a exploração dos poderosos para justificar a própria dependência.

    Na política, o desenho é o mesmo. Um grupo comete abusos. O grupo adversário denuncia, conquista apoio e chega ao poder. Uma vez lá, comete os seus próprios abusos, agora justificados como necessários para impedir a volta do primeiro. Os apoiadores do primeiro grupo usam esses novos abusos para defendê-lo outra vez. E o ciclo recomeça:

    abuso → indignação → reação extremada → novos abusos → mais indignação → polarização crescente.

    Nesse processo, a pergunta interior muda. Deixamos de perguntar “minha atitude é justa?” e passamos a perguntar “por que eu deveria agir corretamente se o outro lado não age?”. Começamos a tolerar nos nossos aliados aquilo que condenamos nos adversários. Enxergamos com nitidez as distorções do outro e encontramos desculpas para as nossas.

    A reação, portanto, tem a mesma medida do abuso que a provocou: quanto mais extremo o abuso, mais extrema a reação. Mas a forma que ela assume depende da consciência de quem reage. Presa à dualidade, a reação se torna um novo extremo; madura, ela corrige sem destruir. E há um risco ainda mais profundo: quando acreditamos que só o nosso lado tem a verdade, passamos a achar legítimo usar meios injustos para defender o que julgamos justo. Nesse momento, o combate ao abuso se transforma em uma nova forma de abuso.

    O Guia também lembra que não são apenas os governantes que distorcem os princípios. Os governados também o fazem. Os líderes podem alimentar a divisão, mas é a consciência coletiva que determina, em grande parte, se ela será aprofundada ou superada.

    A saída não é a vitória de um dos lados, a saída é para dentro

    Podemos agora reformular a afirmação que deu origem a este texto. A polarização é uma reação, na mesma proporção, aos abusos cometidos pelos líderes. Ela se aprofunda quando a consciência coletiva ainda está presa à dualidade e quando cada um de nós, em vez de assumir a própria responsabilidade, apenas acusa o outro. Quando cada lado passa a justificar seus excessos apontando os erros do adversário, o pêndulo se afasta cada vez mais do equilíbrio.

    Por isso, a vitória de um dos extremos não resolve a polarização. Ela apenas prepara a próxima reação. O pêndulo continuará oscilando até que a consciência coletiva evolua e os princípios divinos de cada sistema político sejam respeitados. Assim, a amplitude de oscilação do pêndulo diminui e a humanidade se aproxima de um ponto de integração.

    Uma sociedade madura consegue combater o abuso de autoridade sem rejeitar o conceito de autoridade. Consegue combater as desigualdades injustas sem negar a liberdade individual. E consegue defender a liberdade sem abandonar a responsabilidade coletiva. Quando aprendemos a corrigir os abusos sem produzir novos abusos em sentido contrário, o pêndulo começa a perder força.

    A polarização que vivemos é uma crise, e toda crise carrega um potencial de cura. Ela revela, em escala coletiva, os conflitos que ainda não resolvemos dentro de nós. E cada pessoa que trabalha para superar a própria dualidade contribui, ainda que de maneira sutil, para transformar a realidade de todos (2). Pessoas comuns, de dentro de suas casas, podem ajudar a reduzir a polarização e acabar com as guerras e com os abusos de autoridade, mais do que os líderes que estão no poder. Não por ação direta, mas pela qualidade da energia que emitem. Elas podem fazer isso identificando e superando seus próprios defeitos, superando sua própria dualidade, mantendo-se comprometidas com seu processo de autoconhecimento e evolução pessoal. Por isso, a saída é para dentro.

    A verdadeira liberdade não está apenas na ausência de restrições externas, mas na capacidade de governar a si mesmo com consciência e responsabilidade. A cura da política começa, portanto, em um lugar que nenhuma eleição alcança: dentro de cada um de nós.

    Fontes

    • (1) Palestra 242 do Pathwork, O Significado Espiritual dos Sistemas Políticos.
    • (2) Palestra 81 do Pathwork, Conflitos no Mundo da Dualidade.
  • Polarização: o termômetro do abuso

    Polarização: o termômetro do abuso

    A polarização não é a doença de uma sociedade. É o seu termômetro. Ela mede o grau de abuso acumulado no corpo social: quanto mais polarizada uma sociedade, maiores são os abusos que estão acontecendo nela.

    O que é polarização

    Polarização é a divisão de uma sociedade em dois blocos que se enxergam como inimigos. Os estudiosos distinguem dois tipos. Na polarização ideológica, as pessoas discordam sobre ideias e propostas. Na polarização afetiva, a diferença política passa a ser vivida como ameaça pessoal, e o outro lado deixa de ser adversário para virar inimigo.

    O Brasil vive hoje as duas. Em outubro de 2026, o Datafolha mostrou que 78% dos brasileiros enxergam o país dividido em dois grupos opostos. Entre eleitores com ensino superior, o número chega a 93%. Uma pesquisa do Instituto Informa apontou que 52,7% da população já rompeu ou reduziu o contato com amigos ou familiares por causa de política.

    A pergunta que importa não é quem tem razão. É por que chegamos a esse ponto.

    A tese: polarização é proporcional ao abuso

    Uma sociedade se torna polarizada quando os abusos cometidos por seus líderes chegam a extremos. A polarização é o sintoma. O abuso é a doença.

    Abuso, aqui, é todo uso do poder contra aqueles que deveriam ser servidos por ele. Pode vir de governantes, de instituições, de grupos organizados. Tem muitas faces: corrupção, privilégios, impunidade, decisões que favorecem poucos, descaso com quem mais precisa, desrespeito aos valores e à liberdade de quem pensa diferente.

    Cada abuso deixa uma marca em quem o sofre, e essas marcas se acumulam como tensão no corpo social. A primeira consequência é a perda de confiança. O Edelman Trust Barometer mostra que apenas 39% dos brasileiros consideram o governo confiável, e associa essa desconfiança à percepção de que a sociedade é injusta e de que governos defendem interesses restritos.

    Quando a confiança nas instituições cai, as pessoas deixam de esperar justiça do sistema. Passam a buscá-la num grupo, num líder, num lado. É nesse momento que a sociedade se parte em dois.

    O mecanismo do pêndulo

    A polarização se comporta como um pêndulo. O movimento é quase mecânico e segue quatro etapas:

    1. Abuso. Um grupo no poder abusa dele.
    2. Tensão. O abuso gera ressentimento e desconfiança, que se acumulam.
    3. Reação. Quando a tensão atinge o limite, o pêndulo se move com violência para o lado oposto. Uma era de abuso extremo gera uma reação extrema.
    4. Novo abuso. A reação extrema, quando chega ao poder, tende a cometer seus próprios abusos. E o ciclo recomeça na direção contrária.

    O pêndulo continua oscilando até que algo mude na raiz. O que cada lado chama de “luta por justiça” muitas vezes é apenas o pêndulo em movimento.

    Por que escolher um lado não resolve

    Se a polarização é uma reação ao abuso, então o outro lado não é um acidente. Ele é a resposta equivalente e necessária aos abusos que o seu lado cometeu ou tolerou. Cada polo existe porque o outro existe, e um alimenta o outro.

    O problema é que cada lado enxerga com clareza os abusos do adversário e quase não vê os próprios. Um estudo da FGV EAESP testou isso com cenários fictícios de acusações de corrupção contra Lula e Bolsonaro. Os participantes consideraram legítimas as decisões judiciais favoráveis ao seu político preferido, mesmo quando havia suspeita de corrupção.

    É esse ponto cego que mantém o pêndulo em movimento. Defender um lado com unhas e dentes não reduz o abuso; apenas troca quem o comete. E quanto mais um lado abusa para vencer, mais forte será a reação que ele mesmo está criando.

    Enquanto cada lado aponta o dedo para o inimigo, ninguém olha para a mão que aponta.

    A raiz: a consciência dualista

    Abusos se repetem porque nascem de uma forma de enxergar a realidade. Grande parte da humanidade ainda organiza a consciência numa visão dualista: eu ou o outro, ganhar ou perder, impor-me ou anular-me.

    Nessa visão, fazer o bem ao outro parece custar algo a si mesmo. Os conflitos morais se tornam intensos e paralisantes. Renunciar a um impulso negativo gera ressentimento; ceder a ele gera culpa. A pessoa permanece dividida por dentro, e uma sociedade de pessoas divididas se divide também.

    Quem vê o mundo como disputa entre “nós” e “eles” tende a justificar o abuso quando ele serve ao próprio grupo. É a mesma lógica que aparece no ponto cego descrito acima.

    Foi sob essa visão que leis, costumes e valores foram construídos durante séculos. Ela foi um campo de aprendizado necessário. Mas está chegando ao limite.

    O caminho: da dualidade à unidade

    Se a polarização mede o abuso, ela não se resolve vencendo o outro lado. Resolve-se reduzindo o abuso, e isso exige uma mudança na raiz: a passagem da consciência dualista para a consciência da unidade.

    Na consciência da unidade, ferir o outro é ferir a si mesmo. Proteger o eu às custas do todo é uma ilusão. Fazer o bem ao outro é, simplesmente, fazer o bem a si mesmo. Essa ideia aparece em muitas tradições filosóficas, religiosas e éticas ao longo da história. A diferença é que agora ela se tornou uma necessidade coletiva: os velhos sistemas não suportam mais o peso de uma consciência que separa.

    Na prática, isso significa trocar a pergunta. Em vez de “quem está certo?”, perguntar “que abuso o outro lado está respondendo?”. E, com a mesma honestidade, “que abusos o meu lado está cometendo ou tolerando?”. Por fim, para transcender os lados: “o que precisa acontecer para que os abusos diminuam na sociedade como um todo?”.

    A transição não acontece de forma abrupta. Não há uma linha clara entre quem vive a velha consciência e quem já habita a nova. Mas cada pessoa que deixa de alimentar o pêndulo diminui a força com que ele oscila.

    Fontes